[Verso] Na sequência do disparo na vila eu ouço um choro Que eu não sei se é interno ou só um mau agouro O tormento é duradouro e eu carrego o fardo Sem saber porque tô aqui qual filho bastardo Onde o gosto da vida é amargo igual fel No banco dos réus, eu sei que não vou pro céu Nem se Jesus for... Pardo O árduo da treta é o sangue na camiseta A solidão é preta e a farda mata na calada A bala cala, calafrio, eu lembro a irmã que caiu Dos parceiro que subiu, a vida é curta pra nós e perigosa demais Se nós não tem opções, a meta é deixar a família bem e a fiel com saudade Com pouca idade, mas eu sei bem como é Viver pouco como rainha e muito como qualquer Pensando sobre o que a vida trouxe e me tirou Pra onde que ela me atirou De onde que ela me retirou Do fim que ela me livrou As merda que eu fiz pelo certo eu não deixei de colher Porque quem erra sabendo, erra por mil A inventa mata, ganância desmata, elite desnata Por mim nós pega e mata 'cês tudo com um fuzil Plomo e plata, vendo os menor morrer na lata Quando não com tiro na lata Porra, e nós nem se despediu! Deus é só a benção da minha nega véia Mulher que corre com os lobo Eu como com os loco O.C.R.I.M.E. S.A. minha alcateia Ouvindo algo, a rua me desaponta A cada trago eu perco a conta De quantas vezes eu já fiquei tonta Na lombra, eu nem sei quantas ponta subiu Sobrevivendo no inferno astral Lá fora o sol racha, faz 40 grau Mocada na cortina de fumaça Várias barca passa e nenhuma me viu Cidade suja, bem vindo a São Paulo Em cada zona vigora sua lei Em cada esquina cada qual na sua função A fúria preta vive outra vez Santa Cristina, os baile embraza Os bota embaça, é o lança No pó tem quem se acaba e dança Segura o B.O. ou criança Malícia no olhar do menor Na cinta o respeito Na mente carrega o distúrbio No peito o sonho: Dominar o mundo que ele não conhece além do subúrbio E nessa realidade estranha, viúva negra não é uma aranha Favela perde o que o sistema ganha Mais um de nós mudou pro Curuçá E eu sei que nessa selva de concreto Ainda existe muito amor no feto Mas se na adolescência o destino for incerto Eles disca 190 pra morte vir te pegar O clima é quente o ano inteiro em San Andreas Aviãozinho e fogueteiro correm igual preás Aí 'cê vai ver as causas são tão banais Filhos desse sistema que nos fez tão desiguais Eu pedi paz, justiça e liberdade pras preta que tão trancada sem poder criar os seus pivete Deve doer que só uma porra e ninguém vê E a cada parto na favela essa novela se repete
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