[Estrofe I] Digam ao presidente que nasci nos anos oitenta Em morte lenta, no meio da dor de uma guerra sangrenta Por conseguinte, criado por essa arte que não alimenta Mas quanta massa cinzenta gasta na construção frásica Em projectos que não pagam uma cesta básica A gente tenta luta contra clipagem da barra vermelha Criando sons mas sem condições para sair da velha Estratificados; analfabetos, iletrados e formados Mas convergidos num som ponto; desempregados Nem santos se mantêm intactos quando a vida é um açoite Saem quatro na madrugada só voltam dois na noite Dois vasos capilares acabados no chão do asfalto É o preço alto a pagar pela falta de comida no prato O sonho não é ter cinco estrelas, é sobreviver ao assalto É um facto, que a vida é foda e poucos aguentam o impacto São batidas como essas que me deixam firme e intacto [Estrofe II] Rebeldia intravenosa injectada como suposto Pela podridão social que deixa um génio mal disposto Que não travam as reflexões de Afonso Coelho Que repelem o vazio do jovem defronte ao espelho Que perde tempo com os filtros do Instagram e Snap E do Trap que julga asfixiar o Boom do Boom Bap Quanto aos outros jovens arredores ditos promissores Aspirantes à futuros bajuladores Com análises nubladas que ameaçam uma nova chuva De crítica, a gente não se prostra, não se curva Que se foda a quem dá azo a música da farsa Que aos ouvidos do Jack Kisala e aos demais não passa Cultuamos com livros e deixamos que o tempo nos crie Um pensamento radiante para que o sol não esfrie Eis a diferença que submete a bosta e a revela O sonho de vencer a miséria contra o sonho de ser estrela [Estrofe III] Digam ao presidente que aos jovens só restam convites Que fazem ponte do futebol, ao álcool e ao não te irrites A meta é esperar que alguém passe e garanta o dia Aos MCs restam versos para fazer poesia Que alimentam o espírito mas não enchem o organismo Pois verdade se diga não se vive do líricismo Chamem isso amor à camisola, doses de altruísmo Que equivale de algum modo a um tipo de patriotismo Não há nada que se cante, assim dizem os tolos Mas a verdade, alguns MCs ficaram sem miolos Como intelektu Mutu Moxy e tantos outros Mas o Undergound vive nem que todos acabem mortos Glaveland isso é um aviso, segurem o vosso Nigga No meu bairro ninguém transcende, foda-se, até que eu diga Fiquem longe da minha escrita, isso é matéria corrosiva Dom Lumando é evolução, não brinquem com a minha saliva
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"Esse Não Sou Eu" appears on "Underground Vive" in 2019.
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