[Verso 1: Shawlin]
Um corpo cansado e velho chega em casa
Dá um suspiro e acende a luz da sala
Não desprende uma fala, não é maluco
Com a cara toda amarrada, dizem que ele tá caduco
Só com a luz do abajur, com o cômodo todo no escuro
Com os olhos mirando o nada, mira no futuro
Silêncio
Chave no criado mudo
Dava até pra ouvir o coração batendo e tudo
Copo largado do lado direito dele
Peito pesado e pensando no filho que ele não teve
A velha vitrola bem a sua frente há trinta anos
Mas hoje a vê com olhos diferentes
[Verso 2: Lumbriga]
Meio que de repente o tom das coisas mudaram
O tempo foi um presente que deram depois tomaram
Levaram à força e aos poucos as forças que ainda tinha
Não podia encarar, mas tava certo que ela vinha
Sentindo umas dores sobre o braço
Uma tontura muito estranha e um puta cansaço
Boto o vinil do Quincy Jones pra lembrar dos compassos
Se viu no mundo das lembranças entre o tempo e o espaço
Surge então na sua frente, e ela é fria como o aço
Confesso, se é comigo eu nem sei o que faço
Alcançou em cima do móvel o ultimo do maço
Acordou do outro lado sem dar nem mais um passo
É só um velho na poltrona à meia-luz do abajur
Escutando seu vinil que traz as melhores lembranças
O velho na poltrona, a luz do abajur
E o vinil que traz as melhores lembranças
[Refrão]
Atrasada, um belo dia
Ela lhe visitou
E viu tudo que já fez
E que a vida ensinou
Atrasada, um belo dia
Ela lhe visitou
E viu tudo que já fez
E que a vida ensinou
[Verso 3: Lumbriga]
Sozinho e largado, ninguém do seu lado
E cheio de doenças se depender do Estado
Aos 70, afastado do oficio de sociólogo
Sua vida foi um eterno monólogo
Entre discos e livros, pensamentos nocivos
Seus sonhos aos 60 já não tavam mais vivos
Dez anos de decadência, perderam a essência
Cada dia que passava bebia com mais frequência
A eloquência sumira um pouco antes
Seu vigor foi embora e mesmo assim ele não chora por amantes
Desde os 45
Seja o que Deus quiser, pois já não vive com afinco
[Verso 4: Matéria Prima]
Mente obscura em meio a luz acesa
Vários pensamentos sobre a única certeza
No caminho incerto quem te levava pra longe
Chegava mais perto, e nisso meditava como um monge
Será que é desse jeito que eu acabo
Em meus aposentos, velho, só e aposentado
Queria ser lembrado por aqueles anos em que tinha
Confiança na esperança que o diploma mantinha
E assim vinha criando planos
Zuando no colégio, cometendo acertos e enganos
Ele e ela se encontraram no seu primeiro beijo
Teve a noite inesquecível que conheceu o desejo
[Refrão]
Atrasada, um belo dia
Ela lhe visitou
E viu tudo que já fez
E que a vida ensinou
Atrasada, um belo dia
Ela lhe visitou
E viu tudo que já fez
E que a vida ensinou
[Verso 5: Matéria Prima]
Nos 40 a vida se aparenta estranha
Só a solidão acompanha, muito se faz, pouco se ganha
Numa condição que acanha se recolhe
E partir daí na poltrona se encolhe
Pensava no triste quadro que a realidade pinta
Diferente de quando ele tinha 30
Quando restava energia pra superar
Todo aquele passado que vinha lhe visitar
Aos 20 lia nos muros "Abaixo à Ditadura"
Exilavam muitos que exaltavam cultura
Contra a opressão e a tortura
Período da história em que se vivia na mira da amargura
Mas lembra a doçura dos anos anteriores
Tempos de mais alegrias e menos dores
Pequeno pela casa de gigantes corredores
Inocente brincando, era o maior dos sonhadores
[Verso 6: Shawlin]
Memória completa, tudo ela coleta
Você aos 11 de idade aprendendo a andar de bicicleta
Com seu pai no parque, muito antes do baque
Memórias tão perdidas, cê nem sabe como sabe
Tu só lembra, parece que o portal se abre
A memória é um universo, dentro dela tudo cabe
Seja pro bem ou pro mal você lembra de tal
Lembra melhor que ninguém de quando cê tinha alguém
Que te deu o melhor presente no seu grande natal
Que ensinou a jogar poker e batalha naval
Quando vai chegando ao fim começa a mandar a ânsia
E a ver momentos lindos com seus amigos de infância
Agora é um velho na poltrona à meia-luz do abajur
Escutando seu vinil que traz as melhores lembranças
O velho na poltrona, a luz do abajur
E o vinil que traz as melhores lembranças
[Refrão]
Atrasada, um belo dia
Ela lhe visitou
E viu tudo que já fez
E que a vida ensinou
Atrasada, um belo dia
Ela lhe visitou
E viu tudo que já fez
E que a vida ensinou